Espaço reservado para anúncio

O impulso de antecipar o que ainda não aconteceu acompanha a espécie humana desde sempre, mas ganhou contornos particulares em 2026. Nesse período, mercados de previsão sobre eleições e eventos geopolíticos se popularizaram, sistemas de inteligência artificial passaram a gerar prognósticos em segundos e a Copa do Mundo movimentou bolões e apostas em escala global. A pergunta por trás desse comportamento é simples de formular, mas difícil de responder por completo: por que insistimos tanto em adivinhar o futuro?

Parte da resposta está na própria arquitetura do cérebro humano. Uma linha de pesquisa em neurociência, que ganhou força nas últimas duas décadas, descreve o órgão não como um receptor passivo de estímulos, mas como um sistema que formula hipóteses o todo o tempo sobre o que está prestes a acontecer. Essa ideia, batizada de processamento preditivo, remonta ao cientista alemão Hermann von Helmholtz no século 19 e hoje é defendida por pesquisadores como Anil Seth, professor de neurociência cognitiva e computacional da Universidade de Sussex, no Reino Unido.

Espaço reservado para anúncio

Um experimento recente ilustra esse mecanismo em ação ao analisar registros de atividade cerebral de voluntários ouvindo contos de Ernest Hemingway e Arthur Conan Doyle. Usando redes neurais para calcular a previsibilidade estatística de cada palavra, os pesquisadores constataram que o cérebro reage com mais intensidade justamente quando uma palavra foge do esperado. À frente do estudo, o pesquisador Micha Heilbron destacou que a ideia teórica é extremamente popular na neurociência, embora ainda faltem evidências fora de ambientes controlados de laboratório.

Se prever é, em parte, uma função automática da biologia, também existe um componente emocional forte por trás da busca constante por respostas. Pesquisas em psicologia clínica associam a dificuldade de conviver com o incerto a sintomas de ansiedade. O conceito de intolerância à incerteza, estudado há quase três décadas por especialistas como Nicholas Carleton, professor da Universidade de Regina, descreve a tendência de encarar qualquer possibilidade negativa como inaceitável.

Nem toda tentativa de prever o futuro, no entanto, nasce do medo ou da ansiedade. Há quem transforme a habilidade em disciplina metódica, como demonstrou o cientista social Philip Tetlock, professor da Universidade da Pensilvânia. Ele liderou o Good Judgment Project, iniciativa lançada em 2011 que reuniu voluntários sem formação especializada para responder a centenas de perguntas sobre surtos de doenças e movimentações políticas.

O resultado surpreendeu ao revelar que um pequeno grupo de participantes, chamados de superprevisores, alcançou uma precisão cerca de 60% superior à média. Tetlock atribuiu o sucesso menos a um talento inato e mais a hábitos rigorosos, como revisar constantemente as próprias hipóteses. No fim das contas, entre a máquina biológica que calcula probabilidades e a angústia diante do desconhecido, a espécie humana segue tentando chegar um passo à frente do amanhã.

Espaço reservado para anúncio