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A maior parte dos entrevistados em um novo levantamento não considera agressões físicas leves como violência, mas sim como um instrumento legítimo de correção comportamental e de ensino de respeito à autoridade. A constatação faz parte do estudo intitulado “É só uma palmada?”, divulgado nesta quinta-feira (24) pelo Fundo das Nações Unidas para la Infância (Unicef), que analisa os motivos da permanência do castigo corporal contra crianças na primeira infância no Brasil.

A pesquisa qualitativa ouviu 214 pessoas, entre mães, pais, cuidadores, lideranças comunitárias e profissionais da rede de proteção, em três capitais: Rio de Janeiro, Manaus e Recife. No entendimento das famílias ouvidas, há uma distinção nítida entre a chamada palmada ou o tapinha educativo e o espancamento real, o que ajuda a manter a prática enraizada no cotidiano dos lares brasileiros.

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O levantamento detalha que o uso frequente de eufemismos e diminutivos, como chineladinha ou tapinha, serve para retirar o castigo corporal da categoria de violência. Regionalmente, as expressões variam bastante: no Rio de Janeiro foram registradas palavras como chinelada, coça, cinto, beliscão e vara; no Recife, termos como cacete, sandália, puxão e cinto; enquanto em Manaus destacaram-se peia, chinelo, surra e vara.

Apesar da resistência cultural, a pesquisa identificou sinais de mudança e arrependimento, especialmente entre cuidadores mais jovens. Muitos relatam o desejo de educar por meio do diálogo, mas admitem que falta repertório prático para lidar com comportamentos difíceis do desenvolvimento infantil, como birras e manhas, o que acaba gerando reações impulsivas.

Outro fator determinante apontado pelo Unicef é a sobrecarga materna, já que a responsabilidade contínua pelo cuidado dos filhos recai quase toda sobre as mães, enquanto a participação paterna costuma ser pontual e vinculada à disciplina. O estresse e o cansaço acumulados resultam em agressões verbais e físicas que, frequentemente, são seguidas de profundo arrependimento por parte de quem agrediu.

A especialista em proteção à criança do Unicef no Brasil, Luiza Teixeira, afirmou que as intervenções estatais não devem criminalizar os pais, que muitas vezes agem motivados pelo medo do crime organizado em áreas vulneráveis. Para a agência da ONU, a saída exige que o poder público ofereça acolhimento legítimo e alternativas de cuidado sem violência por meio de profissionais em quem a comunidade confia, como professores e agentes de saúde.

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